• Carolina Aita Flores

Entenda o que acontece quando você não fala como se sente


PARA ONDE VAI O QUE NÃO FALAMOS?


Já aconteceu com você? Você está tocando sua vida quando algo te incomoda: alguém diz uma coisa que machuca, você recebe uma notícia ruim, alguém te pede pra fazer algo que você não gostaria de fazer... Ou em um relacionamento com alguém importante, essa pessoa age de uma forma que te desagrada ou faz algo que você não gosta. Já aconteceu com você?


Como você reagiu? Você expressou como aquilo foi ruim? Você disse aberta e honestamente como se sentiu e o que estava pensando? Você falou sobre o quanto aquilo te incomodou? Você explicou como era estar na sua pele e deixou claro que gostaria que isso não voltasse a acontecer? Ou você tomou o caminho mais “fácil” e ficou quieto, disfarçou, engoliu, fez que estava tudo bem? Já aconteceu com você?

Como você se sente quando, por qualquer motivo que seja, permite-se ser machucado e não fala o que realmente está pensando e sentindo? É difícil? Te dá uma sensação de injustiça? Você se sente incompreendido? Sozinho? Burro? Sufocado? Você fica com raiva da outra pessoa? Ou fica com raiva de si mesmo por não falar? Por outro lado, quem sabe você se sinta forte por aguentar sem falar.


Vários são os motivos pelos quais as pessoas ficam quietas em situações que as machucam. Às vezes, isso acontece devido a pensamentos, como: “É melhor não piorar as coisas”, “Se eu falar vai dar briga”, “Não adianta falar, não vai mudar nada”, “Não quero magoar o outro”, “Ele/ela não vai entender”, etc. E assim a vida segue, você aguenta o tranco, sofre em silêncio e, em breve, acontecerá outra situação que irá te magoar e aí você já sabe o que fazer: liga o piloto automático do “aguenta quieto”.


Mas você sabe o que acontece quando guarda para si seus sentimentos? Quando não expressa o que está pensando? Para onde você acha que vai o que não fala?


A tendência é que a mágoa vá se acumulando e as coisas aumentem de proporção. Uma bobagenzinha do dia-a-dia acaba sendo a gota d’água que faz tudo transbordar. Você transborda. Muitas vezes, na forma de raiva, de uma explosão que parece desproporcional se considerar apenas esse último acontecimento, e não todo o resto que você aguentou, sem deixar transparecer como estava pesado ver o balde encher. E isso pode ser ainda pior se a explosão não vier, se você não conseguir extravasar e só se permitir encher, encher, encher...


Não falar como se sente e como percebe as coisas é uma grande injustiça. É injusto para o outro, que não tem a oportunidade de te entender, te apoiar, se corrigir e, até mesmo, se desculpar, se for o caso. E é injusto, especialmente, com você, que vai colecionando ressentimento. Ressentimento é isso: “re-sentir”. Sentir de novo e de novo. Ou seja, quando você não falou da primeira vez, doeu um pouco. Não falou da segunda, doeu de novo. Não falou da terceira, sente mais uma vez. Sente e ressente. E se ressente.


Algumas pessoas, em vez de se expressar, optam por fechar a cara, "amarrar o burro". Dão sinais de que algo não está bem e permanecem emburradas, esperando que o outro adivinhe por que estão assim. Podem pensar: "Ele me conhece" ou "Ela sabe o que fez" e, assim, depositam toda a culpa pelo que as aborreceu no outro, tirando de si a responsabilidade de falar e a oportunidade de resolver o ocorrido. Essa atitude passivo-agressiva não funciona e pode piorar a situação, pois cria ressentimento dos dois lados: quem não fala, se ressente do outro; quem não entende o que aconteceu, se ressente daquele que calou.


É assim que bons relacionamentos vão se desgastando – uma coleção de pequenas (ou grandes) coisas não ditas, que justamente por não terem sido expressadas, se transformam em mágoa, raiva, rancor, desrespeito e decepção e vão criando um abismo entre duas pessoas. E esse abismo começa com uma pequena rachadura, que poderia ter sido reparada no instante em que se formou.


Quando não falamos como nos sentimos, o corpo fala. Você pode não se dar conta, mas de repente sente uma dor de cabeça. Há um aperto no peito, como se estivesse difícil respirar. “Do nada” o corpo dói, os músculos estão tensos, a mandíbula está contraída. Surge uma sensação estranha na garganta, como se estivesse difícil engolir. E está mesmo. Seu corpo está cansado de “engolir” as palavras não ditas. “Quando a boca cala, o corpo fala”.


É natural achar difícil se expressar. Não é fácil falar quando algo nos machuca. Muitas vezes pensamos que é melhor deixar pra lá. De fato, ser tolerante é uma qualidade. Contudo, precisamos estar atentos para não confundir tolerância com descaso com nossos próprios sentimentos. Se você deseja que algo ou alguém mude, a mudança deve começar por você, falando. Não falar garante que as coisas permaneçam como estão ou piorem. Falar aumenta as chances de que aquilo que você disse exerça alguma diferença, seja assimilado e, por que não, provoque uma mudança positiva.


Se você deseja cuidar melhor de si e de suas relações interpessoais, desafie-se a falar. Comece aos poucos. Quando algo pequeno o aborrecer, divida como se sentiu com a outra pessoa. Procure falar numa boa, de maneira suave. Se você não conseguir falar na hora em que a situação aconteceu, não tem problema. Crie outra oportunidade para se expressar. Se achar mais fácil, pode começar escrevendo como se sente. Mas não espere muito tempo, nem caia em procrastinação.


Na hora de se expressar, em vez de culpar a outra pessoa usando frases, como: “Você fez eu me sentir horrível”, responsabilize-se por seus sentimentos, preferindo começar as frases com “Eu”, como: “Eu me senti triste com o que você falou”. Pode parecer um detalhe, mas para entender como isso funciona, coloque-se no lugar da pessoa que irá te ouvir. Quando ouvimos uma frase como “Você fez tal coisa...”, podemos nos sentir atacados. Quando ouvimos uma frase como “Eu me sinto...”, tendemos a ser mais empáticos e a querer ajudar.


Conseguir lidar bem com algo que te afetou é fundamental para sua saúde mental e para o bem-estar de seus relacionamentos. Aprender a se expressar é uma habilidade que pode ser desenvolvida com o treino e aperfeiçoada com a prática. No começo, falar sobre como se sente vai parecer forçado, porque vai mesmo exigir um esforço da sua parte, já que seu piloto automático era aguentar quieto. Porém, como qualquer habilidade que você aprende, conforme for praticando, falar sobre seus sentimentos vai se tornar cada vez mais fácil e natural.


Assim, daqui pra frente, para não acumular ressentimentos, não deixe o balde encher. Despeje seu conteúdo para fora e faça uma bela limpeza no que incomoda. Seja sincero e gentil ao comunicar como se sente. Extravase e lave a alma!


Autora: Carolina Aita Flores, psicóloga do CTC

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