• Carolina Aita Flores

Os dois P's que paralisam


OS DOIS P’s QUE PARALISAM


No consultório atendo muitos pacientes extremamente preocupados com seus trabalhos, mais especificamente, em fazer seu trabalho de forma correta e bem-feita, ou melhor “perfeita”. O problema é que, muitas vezes, por mais dedicados e competentes que eles sejam, eles paralisam diante do que precisam fazer. As causas dessa paralisia aparecem em seus relatos de diversas maneiras: eu não sabia por onde começar, eu não tive tempo suficiente, apareceram outras coisas para resolver, etc.


O que eu tenho observado, quando investigo mais profundamente o que acontece na vida dessas pessoas, é que elas têm duas características em comum em seu funcionamento, os dois P’s: Perfeccionismo e Procrastinação. A primeira delas, o perfeccionismo, é um traço que essas pessoas gostam a respeito de si mesmas, pois acreditam que as ajuda a serem boas em seu trabalho. Já a segunda é vista como o que as atrapalha, que as faz enrolar diante de tarefas a serem cumpridas e a deixar certas coisas para a última hora. Quando me procuram, elas querem se livrar da procrastinação e não dão muita bola para o perfeccionismo.


Mas e se eu disser que, na verdade, essas duas características precisam ser modificadas, pois as duas atrapalham? Ué, como assim perfeccionismo atrapalha? Vou explicar como funciona. Você tem que escrever um relatório para entregar daqui a uma semana. No primeiro dia em que recebe a missão, pensa que ainda tem tempo, então não se preocupa muito. No dia seguinte, resolve pensar em como vai começar a escrever, mas aí percebe que tem muitas coisas menores pra resolver, que tem muita gente te solicitando o tempo todo, que tem muitos e-mails pra responder, que não tem a quantidade de tempo que gostaria para sentar e escrever com calma e blá-blá-blá. Inúmeras desculpas surgem em sua cabeça. De onde vêm essas desculpas? Do perfeccionismo, que coloca na sua cabeça o seguinte: se o cenário não está ideal, não faça nada. Espere até ter as condições ideais para começar.


Você consegue perceber como as duas coisas andam juntas? O perfeccionismo te faz aguardar pelo cenário perfeito para se dedicar a uma tarefa e o tempo que você espera até esse momento ideal surgir é a tal da procrastinação. Que bela armadilha, não? Em vez de usar aqueles quinze minutinhos entre uma tarefa e outra para escrever o relatório, você pensa: “Ah, mas não é tempo o suficiente, melhor deixar pra quando eu realmente tiver tempo” e aí aposto que você usa esse tempo pra dar uma conferida nas redes sociais, pesquisar algo inútil, ver um vídeo no YouTube. E o relatório lá...


Outro fenômeno que percebi atendendo pacientes com problemas de procrastinação é o que batizei de “luxo dos procrastinadores”. O que eu quero dizer com isso? Pessoas que deixam coisas para fazer na última hora o fazem porque, no fundo no fundo, sabem que irão conseguir resolver o que precisam a tempo, então se dão ao luxo de enrolar, adiar, procrastinar. Na maioria das vezes, só procrastina quem sabe que na hora do aperto vai dar um jeito. Mas se essas pessoas conseguem entregar as tarefas no prazo, por que querem deixar de procrastinar?


Bom, o mecanismo psicológico da procrastinação é esse: se você é um procrastinador, sabe que tem uma tarefa para entregar em determinado prazo. Assim que recebe a tarefa, não se preocupa, pois pensa que ainda tem bastante tempo. Os dias vão passando e a tarefa lá, parada. Você se dá ao luxo de procrastinar porque sabe que vai resolver na hora H. O problema é que, enquanto você não resolve a tarefa, seu cérebro lhe envia lembretes constantes sobre essa pendência e o efeito desses alertas é gerar ansiedade. Por melhor que você seja em resolver o que precisa na última hora, durante todo o tempo em que adia a resolução de algo, está vulnerável a sentir ansiedade. Esse é o preço a pagar pela procrastinação.


Por esse motivo os procrastinadores querem deixar de procrastinar. Eles não gostam da sensação de ansiedade que os acompanha enquanto enrolam o que têm para fazer. Outro aspecto interessante é que, algumas vezes, a queixa trazida para o atendimento é: “Não quero me sentir tão ansioso quando tenho coisas pra fazer”, e não “Quero deixar de procrastinar”, pois para algumas pessoas, não está claro que a ansiedade é uma consequência direta da procrastinação.


Um lema que tenho levado para a minha vida e que pode ajudar a aliviar a paralisia produzida pela combinação de perfeccionismo e procrastinação é: “Feito é melhor do que perfeito”. Me deparei com essa frase certo dia ao pesquisar quais eram os passos para publicar um livro. Gostei tanto que a anotei e colei o post-it na minha mesa de trabalho. Quando me pego enrolando, está lá o aviso que me faz reprogramar meu pensamento e agir.


No site em que encontrei a frase, o autor explorava a ideia de que, um dos motivos pelos quais feito é melhor do que perfeito, é porque feito existe e perfeito não. Quando acreditamos que há uma maneira perfeita de fazer algo, temos dificuldade em acabar um projeto ou tarefa. Temos a impressão de que “ainda não está perfeito” – e nem vai estar, pois realmente o perfeito não existe. Existe o bem-feito, que eu considero a medida saudável para resolvermos nossas coisas. Se fizermos nossas atividades de forma bem-feita, continuaremos a entregar bons resultados, não seremos relapsos e negligentes, como temem os perfeccionistas e conseguiremos aproveitar as brechas de tempo, cumprir os prazos com folga e, o melhor de tudo, sem que a ansiedade tome conta.


Se você discorda e acha que o perfeito existe, pense em antigos trabalhos que entregou, textos que escreveu, armários que organizou... Se fosse desempenhar essas mesmas atividades novamente, faria exatamente da mesma forma ou “arrumaria” alguns detalhes? Quando se depara com trabalhos antigos seus, pensa: “Aqui eu usaria outra palavra” ou “Essa frase eu teria escrito de forma diferente”? Se quando olha pra trás, considera que há espaço para melhoras, então concorda que uma tarefa nunca estará perfeita. E essa é a beleza por trás da nossa flexibilidade cognitiva e de nosso amadurecimento intelectual – sempre podemos melhorar. E isso não significa que na época em que fizemos tal atividade não nos esforçamos o suficiente, mas sim fizemos o melhor que conseguimos – o bem-feito saudável.


Portanto, chega de enrolar. Aproveite os minutinhos que sobram e dedique-se a atividades importantes para você e que você tem adiado. Utilize bem o seu tempo e faça suas tarefas de forma bem-feita. Não se entregue à paralisia sentida antes de ler esse texto. Agora que você já sabe como seu cérebro funciona, use isso a seu favor. Se fizer as tarefas assim que chegam para você e evitar enrolar quando tem algo para resolver, a ansiedade não irá te pegar e, ainda por cima, irá se sentir útil, produtivo e competente.


Autora: Carolina Aita Flores, psicóloga do CTC

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