• Carolina Aita Flores

Você já se sentiu vazio? Como se faltasse algo pra te completar?


No consultório tenho me deparado com uma queixa bastante prevalente entre os pacientes, que referem sentir um “vazio”, uma sensação de que falta algo, de que nada satisfaz, de que é preciso procurar alguma coisa para preencher esse buraco, para se sentir “completo”. Pelo que tenho visto, esse vazio é um camaleão, ele se transforma em uma necessidade diferente para cada pessoa, ou às vezes, várias necessidades diferentes para a mesma pessoa. Uma necessidade que precisa ser preenchida, mas quando o é, ainda assim não satisfaz.


Vou explicar melhor. Atendo alguns pacientes que comem demais, compram demais, gastam demais, estudam demais, transam demais, passam tempo demais no computador. E todos eles, através de comportamentos diferentes, estão buscando a mesma coisa: preencher o vazio, acalmar a sensação angustiante de que falta alguma coisa. O problema é que essa sensação nunca vai embora, ela apenas suaviza um pouco e depois volta a aparecer, clamando por algo novo para satisfazê-la: mais comida, um sapato novo, uma roupa nova, outro emprego, uma viagem, um curso diferente, uma pessoa diferente.


Pelo que tenho estudado e me deparado na prática, essa sensação de que falta algo, esse “vazio existencial”, é uma característica inerentemente humana. Ou seja, todos nós compartilhamos dessa sensação em algum momento ao longo de nossas vidas, alguns de modo mais intenso, outros de forma mais branda. Mas ela está lá. Em algum recôndito de nossa mente. Às vezes quieta, às vezes gritando para ser ouvida.

Há alguns dias estava trabalhando o vazio com um paciente muito querido, que me disse estar sempre pensando em algo para comprar ou para fazer, imaginando que esse algo lhe proporcionará a sensação que busca. Contudo, quando chega o produto, por exemplo, até desfruta dele, mas não se sente “preenchido”. Quando sugeri a ele que esse vazio é uma característica tipicamente humana e perguntei o que pensava sobre isso, ele me disse: “Sinceramente? Acho uma merda”. E realmente pode ser muito angustiante vivermos sob a impressão de que nunca nada é o suficiente para nos completar. Mas é aí que está o X da questão: se algo precisa nos completar, é porque realmente falta alguma coisa?


No começo desse ano a Youtuber Jout Jout postou um vídeo em seu canal em que lia o livro “A parte que falta”, de Shel Silverstein. A obra infantil de 1976 retrata a história de uma figura geométrica que se sente incompleta e passa sua vida procurando pela parte que falta para preenchê-la. De fevereiro para cá, o vídeo se tornou viral e ultrapassou 5 milhões de visualizações. Além disso, poucos dias após o lançamento do vídeo, o livro ficou em primeiro lugar no ranking dos mais vendidos do Brasil. Essa identificação com o conteúdo do livro é uma prova do quanto estamos afligidos por nossas partes que faltam.


Mas e se formos olhar para o lado positivo de sentirmos essa impressão de que falta alguma coisa? Essa sensação não nos leva apenas a atitudes prejudiciais, como comer muito ou comprar demais. Ela também nos impulsiona em direção a experiências gratificantes, como conhecer pessoas, aprender outras línguas, assistir a um novo gênero de filme, escutar um tipo diferente de música, provar uma comida nova, começar outro curso...


Portanto, se o vazio emocional é inerente à condição humana, é importante aceitar essa sensação e lidar com ela com sabedoria. Afinal, passamos nossa vida fazendo planos, em busca de objetivos, alcançando metas. Essa sensação de vazio nos impulsiona a buscar certas vivências. Se finalmente aprendermos que esse vazio não pode ser preenchido com algo, mas sim identificado e manejado, poderemos desfrutar de nossas experiências de vida de uma maneira mais satisfatória e plena.


Afinal, não há comida o suficiente para preencher o vazio. Não há roupas e calçados suficientes. Não há amores suficientes. Não há filmes, séries, livros que aplacarão de vez essa sensação. Não há carros, viagens, cursos suficientes. Nada é o suficiente para eliminar essa sensação, porque não estamos incompletos, somos incompletos e está tudo bem.


Não será preciso preencher a parte que falta se conseguirmos reconhecer o vazio tal como ele é: apenas uma sensação ambivalente que aparece de vez em quando, que vem e vai, se intensifica e suaviza. Uma sensação de incompletude que nos impulsiona a viver, a buscar novas experiências. Portanto, abrace o seu vazio, não tenha medo dele. Não faça de tudo para despistá-lo em uma vã tentativa de preenchê-lo. Aceite essa parte de você e cuide bem dela.

Autora: Carolina Aita Flores, psicóloga do CTC


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