• Carolina Aita Flores

Conheça os efeitos da exposição a telas nas crianças

Atualizado: Fev 13


Há vários anos as televisões têm sido aliadas dos adultos quando é preciso manter uma criança ocupada, seja enquanto a mãe prepara o almoço, seja para acalmar uma criança agitada ou até mesmo para oferecer aos pais ou cuidadores um pouco de descanso. A TV também proporciona às crianças o contato com outras culturas e costumes, podendo ser um recurso educacional interessante, quando os programas apresentam modelos positivos de comportamento. Porém, o uso cada vez mais prolongado de telas tem se comprovado bastante prejudicial no desenvolvimento infantil.


Além dos desenhos na televisão, as crianças atualmente são expostas a vídeos diversos, propagandas e jogos em celulares ou tablets. Hoje em dia fabricam-se até mesmo capas para eletrônicos especialmente projetadas para serem agarradas pelas mãozinhas das crianças e carrinhos de bebê com suporte para tablet ou celular. Esta exposição cada vez mais frequente suscita a pergunta: que consequências a exposição a telas pode provocar nas crianças?


Diversos estudos demonstram que o uso precoce de televisão, aplicativos e jogos afeta a maneira como o cérebro da criança se desenvolve e, consequentemente, interfere na capacidade de prestar atenção, ouvir, adquirir linguagem e aprender mais tarde na vida.

Alguns pais veem a TV como uma forma de oferecer estímulos para as crianças ou como uma maneira de a criança aprender a linguagem verbal. Porém, ao contrário do que se pensa, a televisão não tem o mesmo efeito em bebês e crianças do que a fala ao vivo. Na verdade, crianças pequenas (até 3 anos) têm um retardo na aquisição da linguagem quando expostas a mais de uma hora de tela por dia, ou seja, demoram mais tempo para aprender a falar.


A animação da televisão não é um diálogo com a criança e sua estrutura frenética e chamativa pode afetar negativamente a capacidade de atenção e escuta da criança. É comprovado que a criança só aprende a fala na interação face a face com outro ser humano, pois a tela não reage, não há interação e reciprocidade – aspectos fundamentais na aquisição da linguagem. Não há substituto para o ato de conversar com a criança e a maior parte do desenvolvimento emocional e da linguagem acontece naturalmente, quando os pais e cuidadores têm tempo de brincar e conversar com a criança.


As telas também têm sido usadas como ferramentas para distrair as crianças, para que ocupem seu tempo e não sintam tédio. Porém, o tédio é uma emoção que precisa ser experimentada. É importante que as crianças aprendam a lidar com o ócio e consigam reconhecê-lo sem se angustiar com ele, pois o tédio é o precursor da criatividade. Se as telas não forem oferecidas como alternativa ao tédio, a própria criança terá a oportunidade de criar estratégias para passar seu tempo, poderá exercitar sua imaginação e inventar suas próprias brincadeiras.


Além de aprender a administrar o ócio e o tédio, é fundamental que as crianças desenvolvam uma maior tolerância à frustração. Ouvir um não quando pedirem para ver um desenho ou usar o celular vai provocar uma dose de frustração e a criança precisa entender essa sensação, entrar em contato com ela, saber que ela irá aliviar e que tudo ficará bem. A tolerância à frustração é uma habilidade importante a se adquirir durante a infância e os pais podem ajudar os filhos nesse processo.


O impacto negativo das telas não está restrito ao atraso na linguagem e à dificuldade em lidar com o tédio e a frustração. Estudos demonstram que crianças expostas a mais de 2 horas na tela têm pior desempenho em testes de raciocínio e de linguagem. Além disso, quanto maior o tempo de exposição, mais se consolida o vício em telas. A palavra vício se aplica aqui, pois a exposição a telas ativa os mesmos sistemas cerebrais de recompensa que o uso de drogas ou açúcar. Sabe-se que, entre o açúcar e a tecnologia, a exposição a telas está mais próxima do crack em termos de mecanismos cerebrais de adição.


Falando em açúcar, atualmente, as famílias têm utilizado as telas como uma maneira de se certificar que a criança coma nas refeições, e de fato ela o faz. Porém, comer enquanto se assiste algo prejudica a consciência alimentar, o aprendizado dos sabores e o desenvolvimento da sensação de saciedade. A criança precisa fazer suas refeições livre de estímulos que a distraiam, concentrada no alimento à sua frente e nas descobertas associadas a cada alimento.


As refeições devem ser um momento livre de eletrônicos, pois é necessário que a criança aprenda os diferentes sabores dos alimentos, descubra que um alimento é salgado e o outro pode ser levemente adocicado ou azedo ou picante, que as comidas têm diferentes temperaturas e texturas, que provocam diferentes sensações na língua, que certos alimentos combinam bem entre si e outros nem tanto. As refeições devem ser um momento de experimentação, curiosidade e descobertas e isso não é possível quando se tem uma tela na frente, captando toda a atenção para o que está ali, e não para o que está no prato.


O uso de eletrônicos durante as refeições provoca problemas no desenvolvimento do paladar, que futuramente levarão a restrições alimentares, ou seja, se terá uma criança que sabe pular anúncios no YouTube, mas não sabe diferenciar um tomate de um brócolis e só come arroz e macarrão. Essa “pasteurização do sabor”, em que todos alimentos têm o mesmo gosto e só chamam a atenção da criança aqueles mais industrializados e processados, ricos em açúcar, sal e gordura, também está associada ao crescimento da obesidade infantil. Além da alteração do paladar, o tempo em frente a telas promove o sedentarismo na infância.


Outro aspecto central da vida das crianças que tem sido prejudicado em função das telas é o sono. O sono prolongado e profundo é importante para o crescimento, a saúde e a consolidação da aprendizagem e a exposição a telas antes da hora de dormir pode interromper os padrões de sono de uma criança. Por isso, recomenda-se desligar todas as telas pelo menos uma hora antes da hora de dormir.


Além dos prejuízos já citados, a tecnologia tem roubado o tempo livre das crianças para interagir entre si, brincar em casa e ao ar livre, se exercitar ou conviver com a família. Por isso, a Associação Americana de Pediatria estabeleceu algumas recomendações quanto ao uso de telas para as crianças:


· Evitar o uso de telas para crianças menores de 18 meses, exceto chamadas por vídeos para promover interação com parentes que moram longe;


· Os pais de crianças de 18 a 24 meses, que desejarem introduzir mídia digital, devem escolher uma programação de alta qualidade e assistir com os filhos para ajudá-los a entender o que estão vendo;


· Para crianças de 2 a 5 anos, o limite de tela é de 1 hora por dia em programas de alta qualidade, com a supervisão de adultos;


· Para crianças com 6 anos de idade ou mais, é necessário estabelecer limites consistentes para o tempo gasto usando a mídia e garantir que os eletrônicos não substituam o tempo de sono adequado, a atividade física e outros comportamentos essenciais à saúde.


As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) são similares. Porém, a SBP recomenda que crianças menores de 2 anos não sejam expostas às telas digitais; que crianças entre 2 a 5 anos tenham tempo de exposição de, no máximo, 1 hora por dia; e que, para crianças acima de 6 anos e adolescentes, o limite de tela seja de 2 horas por dia, exceto em caso de trabalhos acadêmicos, estabelecendo intervalos de descanso e atividade física, restringindo o tempo de jogos online, uso de aplicativos e redes sociais.


Estabelecer limites de tempo de exposição a telas é apenas um dos recursos para diminuir o impacto do uso da tecnologia na vida das crianças. Outras formas de manejar a questão envolvem designar locais da casa livres de tecnologia, como os quartos, e momentos do dia sem mídia, como trajetos de carro e a hora das refeições.


Como diz a pediatra Kelly Oliveira, a tecnologia não pode ser utilizada como “chupeta emocional”. Apesar de ser eficaz para distrair e tranquilizar uma criança, a mídia não deve ser a única forma de se fazer isso, pois pode atrapalhar a capacidade da criança de compreender e gerenciar as próprias emoções. As crianças precisam reconhecer todo seu espectro de emoções e ter auxílio dos pais para lidar com elas, sem precisar dos dispositivos eletrônicos para isso.


Como sugestão pessoal para auxiliar as crianças a desenvolverem uma relação saudável com a tecnologia, recomendo uma estratégia que funciona em diversas outras áreas da vida da criança: dê o exemplo. Se você quer que seu filho seja um leitor voraz, leia em sua presença; se você quer que seu filho se alimente bem, coma de maneira saudável; se você quer que seu filho diminua o uso de eletrônicos, largue o celular e desligue a TV. Os exemplos transmitidos pelos pais em seu comportamento são mais eficazes em moldar o repertório comportamental dos filhos do que qualquer conversa, bronca, castigo ou limite que se possa estabelecer.


Carolina Aita Flores - Psicóloga Perinatal


Referências:

Podcast Mamilos – Episódio 218 – Crianças e telas – 11/10/2019

Sociedade Brasileira de Pediatria

Associação Americana de Pediatria

Pediatra Descomplicada – Dr. Kelly Oliveira

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