• Carolina Aita Flores

Está sem vontade de fazer as coisas? Não caia nessa armadilha


A ARMADILHA DA VONTADE


Já faz algum tempo que eu quero escrever uma crônica sobre esse assunto. Faltou vontade? Talvez. Faltou organização? Com certeza. Hoje finalmente ela vai sair, então vamos lá. Geralmente, gosto de contextualizar o assunto, então vamos começar com as definições que o dicionário traz sobre a vontade:


1. Faculdade que tem o ser humano de querer, de escolher, de livremente praticar ou deixar de praticar certos atos.

2. Força interior que impulsiona o indivíduo a realizar algo, a atingir seus fins ou desejos; ânimo, determinação, firmeza.


Considerando a primeira definição, se podemos praticar livremente certos atos, por que tendemos a deixar de praticá-los? Por que procrastinamos tanto?


No consultório, quando pergunto aos pacientes se fizeram nossos combinados da terapia, aquilo que tinham se proposto a fazer em busca de seus objetivos de vida, escuto com muita frequência que não sentiram vontade. “Eu ia fazer, mas não deu vontade”. A vontade (ou a falta dela) aparece como um obstáculo que sabota todos os esforços em direção àquilo que é realmente importante para os meus pacientes. E tenho observado que isso acontece com muitas pessoas, não só no contexto clínico.

Tenho me referido a esse fenômeno como a “armadilha da vontade”. Que história é essa de não pararmos para estudar para aquela prova, ler aquele livro, ligar para aquela pessoa, atualizar o currículo, sair com os amigos, fazer aquele curso porque “não deu vontade”? O que irá acontecer conosco se fizermos só o que temos vontade? A resposta provável: iremos comer, dormir e assistir Netflix.


Tudo o que realmente importa para nós extrapola um mero sentimento de vontade. Tudo o que realmente é precioso em nossa vida exige esforço para ser mantido. Para sermos bons alunos, precisamos desligar a TV e estudar; para sermos bons profissionais, precisamos estar constantemente atualizados em nossa área; para sermos bons pais, precisamos sentar no chão para brincar com nossos filhos; para sermos bons parceiros, precisamos largar o celular e olhar no olho, perguntar como foi o dia, demonstrar nosso afeto. Essas atitudes não dependem apenas da nossa vontade, mas sim da nossa dedicação consciente.


Se a vontade tem a ver com a nossa capacidade de “querer” e de “escolher”, quando deixamos de ir à academia porque não estávamos com vontade, isso significa que não queremos emagrecer? Que escolhemos permanecer sedentários? E pensando na segunda definição, que cita uma “força interior”, quando não sentimos vontade de fazer nossas atividades, isso significa que somos fracos? Que não temos a determinação e a firmeza necessárias? De modo algum acredito nisso. Acredito que nos escondemos atrás da falta de vontade como uma desculpa para nos permitirmos procrastinar quando não estamos a fim de fazer algo, quando temos distrações melhores para nos ocupar ou quando algo, apesar de importante, é difícil de colocarmos em prática.


Na depressão é assim. A depressão acaba com a vontade de fazer qualquer coisa. A única vontade que se tem é de ficar na cama, permanecer deitado, dormir para esquecer o que está difícil. A orientação para os pacientes deprimidos? Ativação comportamental. Ou seja, mesmo que você não sinta vontade, saia da cama. Mesmo que não esteja com vontade, faça uma caminhada. Mesmo que não te dê vontade, aceite aquele convite para sair. Não podemos orientar os pacientes (ou qualquer outra pessoa) a fazer algo apenas quando sentir vontade ou a fazer só o que tem vontade. Essa é a tal da armadilha.


A meu ver, não se trata de força ou de ânimo, mas sim de esforço e também de uma pitada de organização e disciplina para cuidarmos do que realmente importa para nós. Do contrário, permaneceremos reféns de nossos próprios obstáculos, caindo de novo na mesma armadilha, perpetuando um ciclo de autossabotagem que nos traz consequências danosas. Quando deixamos de fazer algo importante porque caímos na armadilha da vontade, nosso senso de autoeficácia diminui, nos sentimos incapazes, preguiçosos, relapsos e, até mesmo, culpados, inventando desculpas para nosso comportamento procrastinador. Por outro lado, quando driblamos as distrações, superamos a falta de vontade e fazemos o que tem que ser feito, nos sentimos produtivos, realizados, úteis e plenos.


Assim, daqui pra frente, cuide de si mesmo. Vá atrás de seus objetivos. Coloque em prática os seus planos. Agora que você já conhece essa armadilha, fique atento para quando ela aparecer tentando te seduzir a deixar tudo para depois, a adiar o que realmente importa. Basta se organizar que você terá tempo para fazer o que é de fato importante para você e, ainda por cima, se recompensar com aquela sériezinha tão esperada.


Autora: Carolina Aita Flores, psicóloga do CTC

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